A economia espacial movimenta centenas de bilhões de dólares e aparece em projeções que ultrapassam US$ 1 trilhão. Mas o número apresentado em uma manchete depende de uma pergunta anterior: o que exatamente está sendo medido?

Comparar estimativas sem entender seus conceitos pode criar uma impressão enganosa de precisão. Algumas medem receitas de empresas diretamente ligadas ao setor. Outras incluem atividades econômicas que dependem de serviços espaciais, mesmo quando a empresa que fatura está em outra indústria.

Não existe uma única fronteira para a Space Economy

Uma definição mais restrita considera lançamentos, fabricação de satélites, equipamentos de solo e serviços de operação. Definições ampliadas também incorporam aplicações de navegação, comunicações, observação da Terra e atividades econômicas habilitadas por elas.

Essa diferença é fundamental. Uma empresa que vende imagens de satélite gera receita espacial direta. Já uma transportadora que melhora suas rotas usando navegação por satélite obtém um benefício econômico habilitado pelo espaço — mas contabilizar todo o faturamento da transportadora como receita espacial seria inadequado em muitas metodologias.

Quatro métricas que não devem ser confundidas

1. Receita direta

Faturamento de produtos e serviços ligados à cadeia espacial, como equipamentos, lançamentos, comunicações satelitais e dados. É útil para avaliar fornecedores e mercados endereçáveis, mas a composição varia conforme o relatório.

2. Valor agregado

Contribuição econômica de uma atividade após descontar insumos intermediários. Essa métrica evita somar indiscriminadamente receitas ao longo de uma mesma cadeia, que poderiam gerar dupla contagem.

3. Investimento

Capital aportado em empresas, projetos ou infraestrutura. Investimento não é receita: uma rodada de venture capital pode financiar anos de desenvolvimento sem corresponder a vendas naquele período.

4. Impacto econômico habilitado

Valor associado ao uso de tecnologias espaciais por outros setores, como produtividade, logística ou agricultura. Sua estimativa exige hipóteses de atribuição e pode ser muito maior que a receita direta da indústria espacial.

Por que aparecem números tão diferentes?

O relatório Space: The $1.8 Trillion Opportunity for Global Economic Growth, publicado em 2024 pelo Fórum Econômico Mundial em colaboração com a McKinsey, apresentou uma estimativa de aproximadamente US$ 630 bilhões para 2023 e projetou US$ 1,8 trilhão para 2035. O estudo utiliza uma visão abrangente da economia espacial, incluindo atividades habilitadas pelo espaço em diferentes setores.

Outras publicações podem usar escopos mais estreitos, anos-base diferentes, valores nominais ou metodologias distintas. Portanto, divergências entre números não indicam necessariamente que um relatório esteja errado.

Além disso, US$ 1,8 trilhão em 2035 é uma projeção, não um valor já realizado. Projeções dependem de hipóteses sobre adoção tecnológica, preços, regulação, investimentos e crescimento de mercados usuários.

Como comparar dois estudos corretamente

Antes de repetir qualquer estatística, confira seis itens: ano de referência, abrangência geográfica, setores incluídos, métrica utilizada, tratamento de dupla contagem e natureza do número — dado observado ou projeção.

Também é importante verificar se valores estão em dólares correntes ou constantes e se as séries históricas foram revisadas. Um ranking de países, por exemplo, pode mudar conforme se considera apenas fabricação espacial ou também serviços de navegação e telecomunicações.

O que faz sentido medir no Brasil?

Um painel nacional poderia acompanhar separadamente orçamento público espacial, compras governamentais, número de empresas, empregos, exportações, investimentos privados, contratos comerciais, infraestrutura e adoção de serviços espaciais por outros setores.

O Observatório do Setor Espacial Brasileiro, da Agência Espacial Brasileira, é um ponto de partida para organizar indicadores e suas fontes. O mais importante é preservar transparência metodológica: sem saber o que está dentro da conta, um número grande pode impressionar mais do que informar.

Uma regra editorial simples

Ao citar o tamanho da economia espacial, publique sempre o número acompanhado de fonte, ano, escopo e definição. É a diferença entre reproduzir uma estatística e oferecer inteligência de mercado.

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Fontes e referências

Imagem de capa: NASA. Uso editorial e informativo; a presença da imagem não implica endosso da NASA.